Onde se celebra o centenário de 1913 e se
distribuem umas chapadas em honra da Sagração da Primavera.
1913
O fascínio místico dos números redondos e até
de alguns primos, misticismo a que a mente ocidental parece condenada
desde a acusmática de Pitágoras, recorda-nos que faz agora 100
aninhos estávamos em 1913. Confesso que não tenho grande estima por
efemérides, mas no caso que nos traz aqui há duas ou três boas
razões para recordar.
1913 foi quando Igor Stravinski e Nijinski
estrearam o bailado A Sagração da Primavera,
violentamente apupado pelo público e zurzido pela crítica. Aos
primeiros acordes, estranhos e dissonantes aos
ouvidos das regras
oitocentistas, às primeiras
figuras coreografadas, alheias ao classicismo em
pontas reinante, a plateia
entrou num apupo que
descambou
alguns minutos depois num
arraial de pancadaria generalizada;
foi
«necessária» a intervenção da polícia para repor a ordem.
Felizmente existe essa coisa
de que já falámos no artigo anterior: o filtro do tempo.
Nitidamente Stravinski e
Nijinski não estavam
a fazer «arte para o povo» – pela bitola dos comentários que nos
últimos dias tenho lido na blogosfera e no Facebook acerca de
algumas manifestações de arte recentes em
Lisboa, o trabalho de
Stravinski e Nijinski jamais
deveria ser financiado e muito menos apoiado pelas instituições
oficiais. [Nota: avisaram-me
que o meu tom de resposta a alguns desses comentários não tem sido
o mais aconselhável
e cordato. Resposta: estou a celebrar o centenário de A
Sagração da Primavera, e isso,
para ser feito com convicção, exige umas boas chapadas na plateia.]
[imagem: figurino de
Nicolas Roerich para o bailado Sagração da Primavera]
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O intonarumori |
1913 foi também
o ano em que Luigi Russolo
publicou o manifesto L'arte dei rumori / A Arte do Ruído /
Art
Of Noise, oferecendo
ao mundo um novo mundo
sonoro.
Pondo de parte aspectos
circunstanciais e as liberdades poéticas do manifesto, o que nos diz esse
texto? Diz que os futuristas
querem fazer uma arte do seu tempo, e que o seu tempo é um tempo
industrial, que já nada tem a ver com a singela sonoridade da
natureza selvagem, florida e
pipilante; é um tempo em que
os transeuntes atravessam
o ar poluído das
ruas plenas de ruídos citadinos, e
os proletários geram
clangores industriais que
atingem um nível sonoro jamais imaginado
pela natureza;
é um tempo em que
nenhum retrato sonoro da nossa época pode
ser fidedigno se esses ruídos
não estiverem lá – sem eles, estaremos a construir uma ilusão
que mente acerca da nossa própria vida, que
nos aliena da nossa condição social, política e cultural.
O grupo de artistas sonoros
de Russolo inventa um aparelho capaz de
reproduzir a realidade sonora do nosso quotidiano – o
intonarumori –,
e antecipa no plano teórico a criação da música concreta, da
musica electrónica e de uma parte da música experimental. Por
assim dizer, Russolo e o seu grupo pré-inventam Pierre Schaeffer,
Stockhausen, John Cage, e tantos outros.
O manifesto de Russolo é um desses momentos históricos que nos
mostra que os artistas
conseguem ver a realidade presente melhor que todos os políticos e
economistas juntos, e que conseguem antever as consequências futuras
dos nossos actos presentes
como nenhum político jamais conseguiu antever. [Nota: Neste aspecto
haveria muito a dizer sobre o trabalho dos escritores de ficção
científica, mas o que há a dizer não caberia neste reduzido
espaço.]
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Hugo Ball em performance |
Estiquemos um
pouco a efeméride (as efemérides são sempre assim, muito
elásticas, o que me irrita um bocadinho) e vamos
encontrar em 1914 Hugo Ball a entregar-se às autoridades do outro
lado da trincheira. Juntamente com outros artistas que têm a coragem
de ser suficientemente cobardes para desertar da primeira guerra a
que uma ínfima elite da humanidade conseguiu imprimir um
carácter global, refugia-se
na Suíça, território neutro mais à mão de semear. Aí formam um
grupo que viria a ser conhecido por Cabaret Voltaire. Mas antes de
encontrarem uma casa que abrigasse o cabaré e
de lhe darem esse nome definitivo,
andaram
de café em café, fazendo coisas estranhas e inomináveis à
época (hoje
designadas performance),
onde angariaram a fama
de «perigoso grupo de anarquistas
e esquerdistas». Este perigoso grupo viria a dar origem ao movimento
Dada, e com ele (e outros) a
história contemporânea da
arte, do pensamento e das atitudes perante a sociedade iria sofrer
uma revolução. O público
burguês respondeu exactamente como o Cabaret Voltaire/Dada tinha
previsto e pretendido: indignando-se, despertando emoções
recalcadas pela apneia moral dos cantões suíços [Nota: vide Dr.
Ox, de Júlio Verne],
partindo-lhes a casa toda.
Por cá, e contra
o que é o nosso costume (ou contra a imagem idealizada
dos nossos costumes?), uma apreciável soma de artistas acompanhava o
andamento destas vanguardas e num ou noutro caso até o antecipava.
Em 1917, finalmente, é publicado o
primeiro número da revista Portugal Futurista.
Este primeiro número foi também o último, acabando
por ser apreendido pela polícia quando já se encontrava nos
escaparates, por ordem da comissão de censura.
Mas então,
perguntarão vocês, se nessa época havia uma comissão de censura,
como se explica que a revista
tenha conseguido ser impressa e a ordem de apreensão só tenha sido
dada depois de o exemplar já se
encontrar exposto? Esta é a
pergunta cuja resposta
vale um milhão e justifica trazermos o
acontecimento para dentro deste artigo: A censura actuou em resposta
a uma denúncia de um cidadão comum, que se queixou da
«linguagem despejada» do
texto Saltimbancos, de
Almada Negreiros. Este texto, na linha do movimento futurista,
adoptava o interseccionismo (uma espécie de cubismo aplicado à
narrativa, acrescentando novas dimensões ao pensamento linear da
escrita – vide Vilém Flusser). Aquela
denúncia, que mata à nascença uma revista que poderia ter-se
tornado uma das principais
expressões dos movimentos vanguardistas em Portugal, não pode
deixar de se associar no nosso espírito às altissonantes denúncias
que acusam, neste nosso
Setembro de 2013, um grupo
actual de performers
de ter mijado em cima de retratos
de Passos Coelho e companhia. Felizmente não há comissão de
censura (ou será melhor dizer: «ainda
não»),
e os artistas em questão continuam em liberdade (quero eu dizer: não
estão na prisão).
Mas a «prisão»
de um artista (e,
potencialmente, a de qualquer cidadão) não
se reduz à caricatura de quatro paredes, um tecto e uma janela com
grades. Passa por muitos outros e variados constrangimentos,
um dos quais pode ser a moral pública, em especial quando essa moral
(ou estética, vai dar no mesmo) encontra os meios institucionais de
se materializar normativamente e se
traduz em coações (ou
simplesmente limitações)
físicas e materiais.
Alguns dos
denunciantes da performance
em questão (refiro-me à
actual, não às de 1913)
têm além disso
responsabilidades acrescidas: têm púlpitos de grande audiência,
alguns são jornalistas encartados e activos, gerem Facebooks com
centenas ou milhares de seguidores, e estão muito claramente a
incitar à instituição duma censura e ao corte do que ainda resta
de apoios à criação artística fora do mainstream.
É a esses
denunciantes,
a essa plateia conservadora, violentamente agressiva,
sectária e censória, que eu, em honra do centenário da
Sagração da Primavera,
quero distribuir tantas chapadas quantas permitam
as minhas forças.
[continua no próximo artigo]
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